A VIDA SE GANHA NAS ALTURAS Por Cristovão Lemos 28 junho 2010 em 0:00 e Nenhum Comentário

É preciso ter coragem para ir lá em cima e ficar lavando prédios

Você teria a coragem de ficar pendurado lavando um prédio de 60 andares? “Por que não? Eu faço isso há mais de 40 anos…”, responde o nordestino Sebastião Prado, 55 anos, que já rodou o mundo lavando edifícios no Chile, na Bolívia e até em Cuba.

Herdou a profissão de seu pai que já o levava para conhecer os edifícios quando ainda era garoto. “Desde cedo a gente teve que trabalhar para ajudar no sustento da casa”, relata.

Analfabeto, Sebastião ainda tentou ir à escola, mas a ignorância do pai impedia: “Ele dizia: escola e estudo é coisa pra vagabundo.”

Prado não é exceção em meio a milhões de Brasileiros. Ele faz parte da triste estatística que não deixa dúvidas: a cada 10 nordestinos que chegam na capital paulista, pelo menos sete são casados e estão à procura de trabalho e de uma vida melhor.

De qualquer forma, Sebastião abandonou a escola antes dos 14 anos. Depois conheceu sua esposa e bastou um ano de namoro para que a notícia chegasse até os ouvidos de “seo” Alfredo, seu pai: “O senhor vai ser avô.” Sebastião se justifica dizendo que “naquela época a gente não tinha televisão não”, e sorri. “Quem pariu Mateus que balance o berço”, gritava seu pai, em resposta.

A única coisa que Sebastião sabia fazer era lavar prédios, e, claro, ir para roça era coisa que não passava pela sua cabeça. Foi assim que começou assim a lavar um prédio aqui, outro ali.

“Cheguei a pegar serviço por um preço bem barato, só para conquistar o freguês”, afinal de contas precisava levar o sustento para casa.

Em meio aos diversos trabalhos realizados, começou a ensinar a profissão para o filho de um amigo, sem levar em considerações os tais “azares da sorte”. “Parecia que tudo estava tudo dando errado pra mim. A gente estava trabalhando e a corda onde o rapaz estava amarrado acabou se rompendo e eu só vi o menino caindo”, relata. Ele ainda chora até hoje cada vez que lembra ou conta. Afinal foi a primeira vez que Sebastião sentia o gosto da morte.

“Levei um tempão para ter coragem de voltar a trabalhar e lavar prédios novamente. Mas, afinal, a vida não para, as contas continuavam a chegar e eu voltei para a luta”, conta.

Já tinham se passado 15 anos de trabalho duro e um dia, durante a pausa do almoço, um senhor de fala muito estranha se acercou e falando enrolado disse que precisava dos serviços dele.

Era o Augusto Morales, um senhor dono de uma das maiores empreiteiras da Bolívia. Procurava quem pudesse acompanhá-lo ao seu país para lavar um prédio que ninguém queria enfrentar. Sebastião não pensou duas vezes e quando viu estava diante de um prédio com 60 andares. “Meu Deus, como esse bicho é grande”, disse. “Eu vou “enfiar a faca”, vou pedir um absurdo para esse homem, assim ele desiste e eu não enfrento esse prédio do tamanho do mundo”. Pediu alto para fazer o serviço, mas o Sr. Augusto estava disposto a pagar o que fosse necessário. “Está feito”, falou.

E foi assim que Sebastião acabou executando o maior serviço da sua vida, lavando um prédio de 60 andares e se tornando conhecido no ciclo de profissionais da área.

“Não são todos os lavadores que sobem num prédio tão alto”, diz, completando: “se bem que quando a gente tem que morrer, morre caindo de um prédio de dois andares ou de um edifício de 60. Dá tudo na mesma”, brinca corajoso.

Publicada por:

SIDNEY SANTOS JOAQUIM

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